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sexta-feira, 9 de maio de 2014

As chances são as mesmas?

Nasceu no corredor do hospital e já ganhou o nome que nem gostaria de ter. Abriu os olhos que não eram azuis. Sugou o leite do peito que lhe puseram na boca sem saber que aquele gosto colosso era tão breve quanto os seios fartos, que secaram em três dias. Saiu do hospital em ônibus público lotado, e o motorista sem troco não queria deixá-lo entrar enquanto a mãe, que só tinha aquela nota dobrada em dez partes, não via outra forma de pagar.
Armou o berreiro numa noite de cólica, o pai alcoolizado não queria escutar. A mãe, coitada, tentava acalmá-lo, mas o menino, doente ou valente, queria enfrentar. Chorava tão alto que os vizinhos pensavam que o menino sofria de algum mal maior, talvez já previsse o futuro onde gente da sua gente costuma chorar baixinho: pelos becos, pelo cômodo que abriga onze pessoas, pelos botecos de pinga barata, pelos esgotos a céu abertos, pela comida que falta, pela angústia farta.
O menino cresceu rápido, não coube na roupa e a mãe dava a desculpa que era para refrescar. Mas quando o inverno chegava e as pernas e barriga continuavam à mostra: “O menino é tão danado que não sente frio!”, dizia a avó para tentar disfarçar. E o menino ficava gripado dia sim dia não, outro dia disseram que ia morrer do pulmão. 
Ele deu os primeiros passos sem saber que era assim, cambaleante, que a vida lhe proporia o andar. E a primeira palavra? Foi “fome”, não tinha palavra mais urgente a falar.  
Chegou na escola viu paredes cor-de-não-é-legal e tinha uma professora que só fazia gritar. Quis desligar o despertador, acordou. Quis não vestir azul, anil. Rezou um pai nosso que não estava no céu e, se estava, não queria ajudar. Cantou um hino nacional a uma pátria que não amava e que não queria salvar. Passou a vida inteira achando que fala errado, só porque era da realidade que desejava falar.
O menino antes de virar homem já tinha filho pra cuidar, e o filho antes de crescer já não tinha mais pai pra lhe amar.
E aí vem me dizer um cidadão que não! O governo não tem que se preocupar, as cotas não podem ajudar, não temos que sensibilizar e “é que esse povo não quer trabalhar”. Vem um cidadão me dizer que tem que bater, tem que matar, e que só assim o Brasil vai curar. Tem que negar, tem cegar, tem que seguir e fingir que é normal. Tenho escutado que as chances são as mesmas, mesmo se as dores não forem. Tenho escutado que a vida é assim mesmo, e que todo mundo tem oportunidade. E minha resposta é não! Pelo João, pelo Lucas, pelo Wesley, pelos meninos que jogam bola no campinho de areia desviando de bala perdida, pelas meninas que brincam de cuidar dos irmãos, pelos pais que perdem seus filhos para justiceiros covardes e hipócritas, pelos filhos que perdem seus pais para policial militar insano.
Não aceito a aceitação, em nome do pai, do filho, dos irmãos.


Um comentário:

  1. Olá, Paôla Mira!!!!
    Bom dia!!!! Parabéns, por ter voltado a postar mais um de seus textos interessantes e reflexivos!!!!
    As chances são igualitárias, apenas nas suas funcionalidades e formas, ou seja: Uma forma de nascer e... milhares para morrer!!!!
    Um abraço!!!!!

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